quinta-feira, 11 de junho de 2026

A pastora do consultório



Era a mais nobre das pastoras,

Seu olhar cintilava afeição verdadeira;

Nas terras onde os dramas eram história,

Trazia nos lábios uma mensagem faceira.



Figura magistral, irradiando afeição,

Não era, mas tinha por missão levar luz às pessoas.

Fama ou sucesso pouco importavam;

O que realmente chamava atenção era o amor que sentia pelas outras pessoas.



Tinha uma forma especial de se expressar;

Sua fala ia além do instante vivido.

A beleza do improviso transbordava amor,

Muito além do universo e do desconhecido.



Por tolos era abominada, vista com desdém;

Gentalha infiltrada, desprezando o saber e a cura.

Deturpando seus significados, enalteciam a própria incapacidade;

A realidade que entregavam era a mais bela escória, porém impura.



Três coisas nesta vida são determinantes:

O amor como verdade, a arte e seus limites, e a aceitação dos próprios sentimentos.

Embora seja difícil aceitar a corrupção corrompendo a verdade,

Ela continua presente, mas já não ocupa nossos pensamentos.



Embora não a aceitemos, a vida continua;

Talvez um dia esse processo seja plenamente compreendido.

Quem sabe a verdade interceda, reconciliando a história,

E o fim seja a conclusão desse sinistro desconhecido.



Manoel Cláudio Vieira – 11/06/26 – 04:04h





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quarta-feira, 10 de junho de 2026

O segundo olhar



Não foi pelos anos que se passaram,

nem tanto pela solidão vivida,

mas pela falta de identificação com o que se passava;

nem mesmo as mais doces recordações me foram permitidas



Era uma declaração de amor a sua amada

No papel ele transcreveu o que sentia

O amor pelo qual ele se declarava

Era a inspiração maior que encontrara em sua vida



Na declaração a identificação foi total

Ela era a "realização do que sonhei na vida"

Enquanto ele encontrava o reflexo de si na amada

Essa declaração permaneceu arquivada à descendência esquecida



Lamento nao ter encontrado antes algo tão pessoal

A dor maior  foi o passar do tempo sem nada saber

Viver sem reconhecer-se plenamente num mundo tao vazio

Nem mesmo foi possível ter na lembrança algo físico de um bem-querer



São tantas e tão desconcertantes as sensações vividas

Quiçá a maior delas tenha sido viver distante daquilo que poderia ter sentido.

Sofre-se muito pelo que aconteceu, mas, indubitavelmente

sofre-se ainda mais pelo que poderia ter acontecido e jamais aconteceu.



Uma mesma ideia, um único fato, mas um segundo olhar

Pelo espelho dos olhos, a visão de uma historia pelo avesso

O lamento dela foi por um amor perdido

O dele, ter passado grande parte da vida como um desconhecido




Manoel Cláudio Vieira 10/06/26 - 05:31h




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O valor que não se compra



Sou de um tempo em que a vida era melhor vivenciada

Nele os olhos percorriam com orgulho nossas ações

o tédio nao era um peso, mas um estado criativo

e analisávamos, sob vários ângulos, todas as respostas de uma questão



Sem muita pressa, o tempo transcorria naturalmente.

Havia um espaço maior para a contemplação;

assim como a análise de uma obra de arte demanda tempo,

os segredos da mente eram lapidados pelas ferramentas do coração



Os valores humanos eram medidos de outras formas:

viver muito era quase sinônimo de viver bem.

Pouco se falava em precificar o homem, pois nele víamos valor;

promessas de um mundo melhor eram as garantias para o além



A vida transcorria como um processo quase artesanal,

jamais comparada a uma rotina de acúmulo de dados.

A formação de caráter era moldada pelas circunstâncias;

viver era um processo profundo, onde, continuamente, éramos remodelados



Não sou um crítico voraz dos dias atuais, porém,

faço um adendo ao atual e destrutivo processo de mercantilização:

deixamos de ter um valor intrínseco para ter o de mercado;

fato este que destrói, vigorosamente, as nossas relações



Busque em si resgatar o tempo em que o tédio era criativo;

em teu ser, entalhe veias por onde possa correr a sua inspiração.

Assim como um dia fomos lapidados pelas experiências humanas,

viver é uma arte, e você é o artífice maior de sua mente e coração.



Manoel Claudio Vieira - 10/06/26 -  00:08h


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terça-feira, 9 de junho de 2026

A morte silenciosa do homem interno



Não sei se tudo isso é real.

Já não consigo discernir o que é concreto ou uma construção.

Não sei se foi a realidade que mudou conceitos perenes,

Ou se fui eu que perdi o pé dos valores desta nova geração.



O normal de uma vida é amadurecer com o tempo,

Aprender a viver frente às regras de uma sociedade.

Ou fui eu que colapsei na busca de um lugar no mundo,

Ou o homem dentro de mim morreu face a essa nova verdade?



Pensar diferente pode ser perigoso,

Algo próximo ao dilema entre a realidade e a dissociação.

Se o afastamento é um ajuste, um mecanismo de defesa frente ao novo,

Justifica-se, então, o isolamento social e a perda das relações?



O que um dia aprendemos, o que nos tornamos:

Antes de amadurecer, buscávamos autorização para existir.

Viver como se nada importasse revela um desejo de anulação;

Quem se amolda à massa passa pelo mundo sem nada sentir



Quando nada mais realmente importa,

O alívio encontrado foi possível pelo vazio em seu coração.

A hostilidade que sente por si mesmo foi transferida;

A anulação do eu aconteceu por um processo contínuo de desintegração.



Por aí navega o fluxo da insignificância;

Acontece quando alguém deixa de considerar-se relevante.

Não se anule para cessar o sofrimento de ser alguém:

Seja sempre você, e não parte do fluxo indiferente da existência.



Manoel Claudio Vieira - 09/06/26 - 02:19h




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sábado, 6 de junho de 2026

Além do cartão_postal



Olho para algumas pessoas e, com certa resiliência, as vejo como um cartão-postal.

Nelas encontro uma vida invejável, com uma harmonia definida.

São seres plurais, cuja presença embeleza o ambiente;

Transmitem a sensação de nostalgia e de uma paz hoje perdida

 

 

Com o tempo, aos poucos, mostram um lado bem mais profundo;

Impossível observá-las apenas pela aparência.

O que antes víamos como meros espectadores muda,

Deixando-nos como um cenário vivo junto à sua presença.

 

 

O que a princípio tínhamos como mais uma ilusão

Faz da contemplação outrora estática um fato real.

Aos poucos desabrocha o nascimento da intimidade;

Os pontos em comum tornam a vida agradável e pessoal.

 

 

Encontre a paz na beleza do outro;

Sei que é difícil encurtar distâncias num mundo tão desigual.

Deixe-se curar pela luz que eles emitem;

Afinal, essa é a arte de viver sem se deixar abater pelo lado pessoal.



Algo importante: não busque perfeição nas pessoas.

Como num cartão que se degrada, você perceberá nelas barreiras;

O tempo age como um fator terapêutico que, por vezes, dói;

Também carregam dores, complexidades e contradições como nuvens passageiras.



Assim como as nuvens, que vêm e vão,

Mistérios uma hora passam, contradições são resolvidas e a dor flutua.

Mesmo que o horizonte não se mostre azul,

Tanto nele como em você, o humor muda, a crise passa e a vida continua.



Manoel Cláudio Vieira - 06/06/26




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