quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A fragilidade da alma



Com o tempo, aprendeu a escrever,

Muito cedo percebeu que as palavras tinham o poder de falar.

A escrita passou a ser sua confidente diária;

As horas vazias ganharam cor, pois tinha alguém com quem conversar.



Aprendeu a domar a madeira,

a dar novas formas, transformando seu exterior.

Tornou-se um passatempo lapidar a matéria,

e foi assim que começou a mudança em seu interior.



Foram inúmeros os processos para dar à vida um sentido;

um aprendizado puxa o outro, aliviando a solidão.

Enquanto um transforma perdas em eternidade,

outros apuram a sobrevivência em nova criação.



Pela escrita era preenchido o silêncio;

moldar a matéria foi o ponto de partida da reconstrução.

Foram estes os primeiros passos lapidando o sentimento:

um diário de vida presente exposto em uma nova versão.



Por vezes, o isolamento soava intransponível;

o som que mais se ouvia era o das batidas do coração.

Em outras — muitas outras —, o medo de não ser compreendido era maior.

Os entalhes na madeira foram as veias em veredas de seu passado.



Nada nesta vida acontece de forma passiva;

ela exige trabalho interno e externo em nosso ser.

Todo cuidado se faz presente: os cupins são eternos parasitas,

destruindo a estrutura de dentro para fora em seu viver.



Manoel Claudio Vieira- 09/09/26 - 02:40h





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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A criança agradece



Dizem que a solidão é uma cela,
Onde, por anos, trabalhamos com afinco,
Tendo a meta de todo homem um dia formar
Um lar que o acolha, e não um novo labirinto.


Não há uma prisão que defina esse isolamento,
O maior dos problemas é sentir-se confinado em seu próprio ser.
Essa solidão não se resume a estar sozinho;
É uma cela de portas abertas onde se perde a razão de viver.


A desorientação atravessa as paredes,
O mundo torna-se um lugar estranho para se viver.
O que antes dava prazer vira um ato punitivo;
As regras já não guiam o nosso amanhecer.


Vivendo numa sociedade onde as distâncias são cada vez menores,
Por si e em si nos sentimos cada vez mais sufocados.
Esse é o resultado de tantas conexões ativas:
Acabamos esquecidos de nós mesmos, não restando sequer o passado.


Se um dia ouvir de alguém que está ficando louco,
Não estranhe, pois esta é a regra no comportamento social.
Sem espelhos com quem possa dividir seus momentos,
Perdeu-se a referência de si mesmo e de sua vida pessoal.


Este é o grande drama da solidão contemporânea:
Muita tecnologia e rara interação humana.
A superficialidade das relações empobrece a vida.
A cura? A simplicidade do olho no olho, fazendo a vida soberana.


E assim é a vida: começando pela forma mais individual,
Entendemos que a solidão não é tão somente uma ausência física.
A modernidade oferece respostas, mas está longe da cura.
Ame... A criança interior agradecerá o retorno à vida.




Manoel Claudio Vieira - 08/09/26 - 05:15h







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domingo, 6 de setembro de 2026

A verdadeira prisão


Um mundo gerado pela ambição,

Impérios de mentira que pairam no ar.

Castelos de areia desfazendo-se ao chão,

E os seres humanos buscando o direito de em paz habitar.


O amor não necessita de acontecimentos extraordinários.

A maneira como alguém nos encanta já diz muito de seu ser.

Ver a luz em cada um de seus gestos são diretrizes de profundidade absoluta.

O alívio acontece quando encontramos quem transforme a dor presente em vontade de viver.


Sinto a luz em quem labora com a paciência de um mestre.

Mais que palavras que nos ensinam, seu coração demonstra o quanto amou.

Seus gestos transformam a percepção que se tem da realidade oculta.

Quem os conhece carrega para sempre aquilo que um dia experimentou.


Eles nos ensinam a pensar e a enxergar com profundidade.

Afirmam que, além da gaiola, encontraremos a liberdade à frente.

Há o pássaro que voou, mas continua preso; e aquele

Que partiu, construiu a armadilha dentro de si e a habita no presente.


Conhecemos melhor aquilo que um dia perdemos.

Através deles temos noção clara do quanto conseguimos amar.

A questão é: o que permanece de algo ou alguém que nunca tivemos?

Voltamos ao pássaro que saiu da gaiola, mas continua prisioneiro no mesmo lugar.


Quando alguém representa durante anos um personagem,

questiona-se onde termina a representação e começa sua pessoa.

Se as qualidades de um filho determinam quem é seu pai...

Se faz uso de máscaras, por que esconde de si mesmo a própria pessoa?



Manoel Claudio Vieira - 06/09/26 - 01:23h




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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Manifesto a vulnerabilidade


Precisamos dar um tempo

Nem tudo que se vê de fato é

Conseguimos muito bem enganar quem nos vê

Porém, o pior acontece quando nós mesmos da vida perdemos o pé



O hoje parece infinito quando o dia não passa

Contamos minutos esperando algo acontecer

Fazendo o possível para preservar os bons momentos

Às vezes, não encontramos forças para viver



Após algum tempo percebe-se com clareza o contraste outrora vivido

A maturidade vem em ondas e por vezes demora a acontecer

Quem vive numa bolha não percebe que entre independência e necessidade

há uma enorme distância e é ela que dá o tino à existência que nos faz viver



Voltar aos eventos de quem um dia nos foi importante

Quando o que sentimos é verdadeiro, a autossuficiência se dilui

A tentativa de prolongar a presença do outro é clara:

As máscaras outrora usadas são a evidência do espaço vazio



Em síntese, este é um ensaio sobre a vida e suas nuances

Fingir que estamos bem só escancara o buraco da ausência

Não se nega a dor e sua aceitação torna o mundo melhor

O amor verdadeiro é o que dá vida à existência



A força que move uma vida não está em fingir

São muitos os eventos que nos atingem, não há como negar

O amor, os sonhos e a coragem de encarar o que temos pela frente

São o manifesto da vulnerabilidade que transforma a ópera da vida num ato de amar




Manoel Claudio Vieira - 03/09/26 - 00:09h




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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Entre a lua e o sol.



Era uma carta de amor,

Ele a escreveu, mas pelo correio jamais foi enviada.

Em mãos, entregou à prometida, que a recebeu,

E em seu coração o acolheu; e, unidos, fizeram morada.



Pelas circunstâncias da vida, ele partiu.

Reler a declaração foi a forma mais poderosa de perpetrar o sentimento que deixou

guardado em seu peito. O silêncio não era falta de respeito — pelo contrário,

era o cuidado ao proteger uma memória, respeitando um ciclo que se fechou.



Ela resguardou algo mais que o seu coração.

As palavras faltavam, o futuro passou a ser incerto;

reorganizou seus pensamentos, voltou à vida, mas

faltava direção: sua vida era um deserto.



Amor não dito, mas resguardado.

A distância e a saudade transformaram a ausência física em permanência emocional.

A entrega em mãos da declaração havia selado o compromisso,

E sua leitura era o veículo encurtando a distância entre a lua e o sol.



Certas despedidas não anulam o afeto.

Elas o transformam em algo sagrado e silencioso.

Embalado pela saudade, na releitura ele se perpetua.

Aquele que ama vê e tem sempre a perspectiva do novo.



Finalizando: aquele que habita o silêncio introspectivo,

ao escrever, alivia o peso da carga sentimental suportada.

Infinitamente melhor é aconchegar-se, deixando o mundo exterior desaparecer.

Não há nada mais reconfortante do que a combinação da chuva batendo na vidraça na noite enluarada.



Manoel Cláudio Vieira - 01/02/26 - 03:42h





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